De Ford ao Coaching – Uma retrospectiva

O Coaching, que vem sendo aplicado com sucesso atualmente nas empresas, é uma evolução de conceitos e práticas adotadas nas organizações desde o início do século passado. Isso não diminui sua importância, pelo contrário, mostra que um dos caminhos para atingir resultado positivo na Administração, é buscar fundamentos em experiências bem sucedidas no passado e acrescentar a elas uma nova abordagem.

Periodicamente a Administração voltada a resultados vem sendo agraciada com técnicas que se apresentam e se caracterizam como uma nova “moda” que vem substituir a que dominava até então. Às vezes o fundamento não muda de uma técnica para outra, mas há uma mudança na maneira de atingir os objetivos e, portanto, nas ferramentas adotadas. O fato de não mudar os fundamentos não é necessariamente ruim, visto que as diferentes técnicas normalmente se apóiam na motivação da equipe, na definição de rumo, na determinação de metas e no acompanhamento de resultados.

O que tem mudado de uma técnica para outra é a abordagem. Umas são mais pragmáticas, como as que representam a escola clássica da administração, com forte visão em resultados, outras levam fortemente em consideração a cultura das organizações como é o sistema Toyota de produção, e outras se apóiam na mudança do comportamento com forte apelo na conscientização e formação humana como, por exemplo, o coaching.

Nos princípios do século passado a escola clássica se fundamentou nas importantes contribuições de Ford e sua linha de montagem móvel e em Taylor com sua abordagem científica. Na visão da época o trabalho era considerado um insumo da produção assim como o material, a energia elétrica, etc. Em última análise o homem era também simplesmente um insumo de produção.

Posteriormente Deming trouxe o PDCA, importante ferramenta para aumento da produtividade. Vieram também Ishikawa com seu famoso diagrama espinha-de-peixe e Taichii Ono com o Sistema Toyota de Produção, Kaizen, kanban, dentre outros.

Nos anos 80 Kepner e Tregoe se tornaram conhecidos com suas ferramentas de AP – análise de problemas, relação de causa e efeito, APP – análise de problemas potenciais. Na mesma época veio a “moda” dos CCQs- círculos de controle da qualidade que se disseminaram pelas empresas de tal forma que aquela que não tivesse seus grupos de CCQ era tida como antiquada pelo meio empresarial.

Na medida em que tais teorias foram surgindo ao longo da história, sua evolução acompanhou, sabiamente, a mudança do comportamento humano no mesmo período. Desde o início do século XX vem acontecendo gradativamente a valorização do homem, do indivíduo na sociedade e por conseqüência no ambiente de trabalho. Hoje as empresas não hesitam em considerar o conhecimento e seus empregados como seu maior patrimônio. Ford não pensava dessa forma. Ao longo dos tempos, em função de aspectos sociais e da concorrência, as empresas passaram a depender cada vez mais do envolvimento e comprometimento de seus empregados. Em paralelo aconteceu o fortalecimento dos sindicatos, a adoção de prêmios por produtividade e necessidade de aprimoramento da qualidade, associados a mercados de porte global e muitas vezes predadores que levam a uma luta exacerbada pela sobrevivência. Muitos foram os importantes autores que contribuíram para uma nova visão da Administração nas empresas dentre os quais situa-se Peter Drucker.

Nos anos 80/90 as empresas que se encontravam em dificuldade e precisavam de uma medida forte para definir seu destino, seja sua revitalização, seja seu desaparecimento, contaram com a Reeengenharia criada por Hammer e Champy. Um amargo remédio que cura ou define a morte da empresa.

Importante também lembrar das técnicas preconizadas pelo Planejamento Estratégico, que solidificou a importância da determinação da visão, missão, pontos fortes e fracos, estabelecimento de objetivos e metas.

Essas teorias aparecem como se fossem ondas ao longo do tempo. As empresas têm demonstrado precisar dessas novidades como elementos de motivação interna de suas equipes na busca de aumento de produtividade, qualidade, penetração no mercado, em resumo, maior lucro.

Hoje, praticamente 100 anos depois de Ford, o coaching ocupa esse espaço e constitui uma ferramenta adequada aos tempos atuais que se fundamenta, dentre outros fatores, em um forte apoio na formação e no comportamento dos envolvidos. Ford motivou seus empregados reduzindo a jornada de trabalho para 8 horas diárias e dobrou os salários para 5 dólares por dia. Hoje a motivação vai muito além de simples medidas pragmáticas. É muito mais sofisticada porque o homem está mais sofisticado.
O coaching se caracteriza como uma forma de aprendizado que aumenta a capacidade de ação do treinando, denominado de coachee. À semelhança de outras técnicas aludidas nesse texto o coaching conta com uma base conceitual e com ferramentas que viabilizam a aplicação da técnica. E a técnica consiste, resumidamente, da formação do coachee, na determinação da missão, na definição de metas e no acompanhamento de resultados. Ou seja, não se trata de uma proposta mágica, mas de uma nova modalidade motivacional, consistente e útil para se buscar aprimoramento e resultado tanto para os indivíduos como para as empresas. Por que não tentar?

Autor: Renato de Arruda Penteado Neto
Empresa: Engenheiro Eletricista – UFPR
Mestre e Doutor em Engenharia Elétrica – UFPR
Especialista – Universidade de Leeds – Inglaterra
Pesquisador – Lactec
Professor Universitário
Coach pelo ICI